NESTE TEXTO VAMOS ANALIZAR OS DOIS LADOS DE UMA MOEDA: o aparente, aquele que ganha a aposta olhando para o céu, e seu inverso, o que fica na palma, o obscuro, aquele que encara o risco material da quiróloga. O caminho tortuoso leva ao encontro da narração com o tema, visando revolver os pensamentos do leitor, tornando a linguagem culta em coloquial e aproximando os corações de seus objetivos.
Vivemos tempos de ceticismo e desesperança, causados pelo excesso de pragmatismo com que cuidamos de nossas vidas. Ao longo da história, essas fases são representadas pelos momentos em que os ciclos religiosidade-ciência sofrem as transições que possibilitam a efetivação das revoluções e das mudanças. Esses momentos de ruptura podem ser claramente observados tanto no Renascimento quanto na Revolução Industrial, quando a perda de religiosidade, ou sua substituição pela ciência, cria novos deuses e aplaca ânsias. Porém, o que observamos no presente é o movimento contrario, que busca a religiosidade reincidente, renegando as velhas doutrinas e recriando novos pastores. Hoje o maior púlpito é a televisão e o livro mais sagrado é a Internet.
O ser humano é incompleto e falho, precisa que grandes mistérios persistam no labirinto terreno, afinal ele é o único animal que tem plena consciência de que morrerá um dia. Há quem diga que o homem inventou Deus para poder ser inventado, caso contrário não existiria. A salvação para o homem não é o Paraíso, a salvação para o homem é sua auto-aceitação. Por conta disso, o padre é eletrônico e hoje, acima de tudo, o papa é pop.
Os profetas são aqueles que indicam suas visões preemptivas de novos mundos, como Torvalds, Gates, Stallman e Raymond, entre outros. Todos eles sabem que a história está sendo escrita neste momento, e que os últimos dez anos - um piscar na história da humanidade - eles mesmos já metamorfosearam a maneira como seus herdeiros viverão. Não existe o falso profeta, pois aqui não falamos de religião, mas sim da incapacidade do homem em aceitar que é dono do seu destino.
Em todas as iniciativas que observamos, todas as ações, pensamentos, vivências e desvarios, existem duas maneiras diferentes de pensar e agir em relação ao mesmo assunto. Que essas maneiras sejam aqui predefinidas como positiva e negativa mas não interpretadas como bem e mal, noções apenas simbólicas e reflexo daquilo que devemos, podemos e gostaríamos de ser. Analisemos o exemplo de uma pessoa que está andando na rua, sente fome e encontra somente um real no bolso, o suficiente para comprar apenas um cachorro-quente. Essa pessoa pode pensar de duas maneiras, 'Que droga, só tenho dinheiro para comprar um cachorro-quente', e 'Que ótimo, ainda bem que tenho dinheiro suficiente para comprar um cachorro-quente". Como podemos ver, as duas interpretações dependem de perceber aquilo que torna a pessoa feliz. Alguns ditados dizem que a felicidade está em se conformar com aquilo que você tem. Aquele que busca, como única meta, somente aquilo que não possui, nunca se dará por satisfeito, pois sempre haverá algo para querer. Abdicar dessa busca é procurar algo mais relevante na vida, algo para realmente se orgulhar, ou melhor, do que não se envergonhar.
O Software Livre representa essa visão positiva da vida, procura o lado bom das coisas, o ser humano redime-se de seu egoísmo e de sua descrença, a humanidade recupera o valor ético e reconfortante da palavra solidariedade.
O movimento de Software Livre nasceu de uma crença, a de que todos os homens possuem direito à informação. A Informação na nova economia globalizada representa poder monetário, obtido através da sua manipulação. Não é interessante que isso, de certa maneira, seja uma representação inconsciente daquilo que observamos em outras empreitadas, como na luta dos sem-terra, por exemplo? Eles crêem que todos devem ter direito a terra, que na sua forma primitiva também representa o acesso ao poder monetário. Ambas as causas acreditam que seus objetos de luta não devam pertencer somente a uma pessoa. Precisam ser divididos entre todos.
Esse entendimento ás vezes se confunde com os diversos "ismos" insistentemente rotulados pelas ações e pensamentos da sociedade. Confrontam-se deslocados o capitalismo, o socialismo, o comunismo, o marxismo, o ativismo e o achismo. Se há algo nessa fileira interminável de medos e devaneios que possa realmente representar o Software Livre, o nome correto dessa corrente seria humanismo.
O Software Livre é uma variante do código aberto, mas não pode ser interpretado como membro da comunidade código aberto. Este consegue de certa maneira ser o melhor amigo e o pior inimigo do Software Livre. A sua proximidade nas ações o torna companheiro, mas a sua despreocupação ideológica perturba o sono daqueles que acreditam em algo mais do que 'eu faço porque quero' ou a indiferença de um 'e daí?'. O ativista de Software Livre é do tipo que sofre com as mazelas do mundo, que quer resolver tudo ao seu alcance, que dá mais de si do que pede, que diz obrigado não apenas por educação, mas porque se sente realmente agradecido. A maior diferença entre o código aberto e o Software Livre é que o código aberto utiliza desculpas como "gratuito", "confiável" ou "melhor" para não ter de admitir que sua luta é social, algo antigamente fora de contexto. O Software Livre admite, sem vergonha de si mesmo, que luta por algo em que acredita, independente da razão ou da lógica, e faz uso de algo intangível, a fé.
Quando se contraria tudo o que a sociedade prega é natural surgirem dúvidas, e dessas incertezas é comum surgir a desistência. Aqueles que passam por esse processo seletivo e continuam acreditando em si mesmos reforçam a sua ideologia e se tornam finalmente senhores de seus atos.
A comunidade vem crescendo e mudando paulatinamente ao longo do tempo. Isso acontece porque a maioria das pessoas que ingressa na comunidade Software Livre tenta fazer o bem (entenda-se: ajudar os outros), mas dificilmente admite isso no princípio. Possuem dispositivos de proteção que escamoteiam sentimentos libertários que, aos poucos vão sendo liberados, como válvulas de escape de uma locomotiva a vapor prestes a explodir. Desde criança são catequizados para simplesmente aceitarem o fato de que ajudar não é possível, e ousaria dizer, "é errado ajudar os outros". As pessoas dizem que ali estão apenas porque pregam a liberdade de expressão, e tentam a todo custo dar viabilidade econômica ao Software Livre, como se isso fosse o que permitiria finalmente se livrarem de seus fantasmas e abraçar a causa. O Software Livre não precisa ser economicamente viável para existir, ele não nasceu por isso e nem morrerá por isso. Podemos considerar o Software Livre como uma doação. Você pode até descontar do imposto de renda para sentir que está sendo menos humano, mas no fundo, você só quer ajudar.
Afinal, em nosso tempo ser santo é sinônimo de ser ignorante, mudar essa interpretação depende de muita análise e de segurança quanto aos próprios desejos em relação à vida. Tudo começa com empatia. A capacidade de colocar-se no lugar de uma pessoa ajuda você a se identificar com ela, e assim ajudá-la. A melhor maneira de evitar a empatia é o distanciamento e o isolamento, algo não muito difícil neste ambiente em que os vidros de carros fechados são paredes invisíveis, em que os olhares não se encontram nem nas esquinas.
Essa dificuldade é compreensível porque o desejo de pertencer à sociedade, uniformizada pelas idéias e pré-concepções da maioria, marginaliza os que tentam novos caminhos. Mesmo os rebeldes, aqueles que se juntam à causa apenas para serem contrários ao grupo, acabam percebendo que a causa sobrepõe os sentimentos de rebeldia e repúdio, que não encontram morada onde há a complacência da compreensão.
Todo o entendimento ideológico do Software Livre pode ser resumido em apenas uma frase: "Devolva para a comunidade tudo aquilo que retirar dela".
A maior expressão desse pensamento é a licença GPL, que diferentemente de licenças de código aberto e de domínio público, define explicitamente essa regra. O funcionamento e a existência da comunidade depende desse fluxo de informação constante, dessa troca de experiências e acúmulo de conhecimento empírico.
A devolução do que foi retirado para a comunidade normalmente é analisada no seu sentido mais abstrato, o das idéias. O software não é considerado um produto, mas um conceito. Englobando o software no âmbito abstrato, as idéias não representam nunca uma inovação, mas sim uma reinterpretação de algo já existente, portanto essa assimilação deveria ser compensada pela devolução dessa idéia ao domínio público. Certas situações são mais fáceis de observar e definir como injustas pela comunidade Software Livre. Um bom exemplo é verificar que muitas das pesquisas na universidade pública não devolvem o fruto da pesquisa para a sociedade, e pesquisadores e alunos patenteiam idéias, remédios e técnicas que só foram descobertos graças à infra-estrutura fornecida pela sociedade. Nem mesmo pode-se dizer que aquilo foi fruto somente da genialidade de uma pessoa, pois as pessoas são fruto da sociedade, não há como negar isso ou desvincular-se, a não ser que a pessoa tenha crescido sozinha em uma ilha.
Quando uma pessoa colabora com a comunidade ela está depositando a confiança de que a sua participação estará ajudando outras pessoas, e deste modo, ajudando a si mesma. Essa ajuda não é necessariamente técnica, pode ser filosófica e abstrata também.
Milhares de pessoas no mundo inteiro doam horas ajudando a comunidade, e isso efetivamente representa um custo, mas então por que fazê-lo? Porque ao mesmo tempo estão investindo esse dinheiro nos seus objetivos de vida. Caminhar no sentido de aumentar o amor-próprio pode ser de valor incalculável para aqueles que gostam de ajudar e têm pouca oportunidade.
Algumas pessoas simplesmente fazem traduções, outras desenham ícones e outros programam. Podemos dizer sem dúvida que não fazem isso por interesse, pois não há remuneração e na maioria das vezes nem mesmo os créditos são associados aos autores. São anônimos e, o mais notório, felizes.
O trecho a seguir é uma citação de um texto de Paul Ferris, que expressa à sua maneira como a comunidade pensa.
- Enquanto empresas debatem as restrições da GPL de um ponto de vista monopolista, um outro ponto parece perde-se completamente de todo o argumento. Embora pareça engraçado para nós que somos envolvidos com o Software Livre, esses argumentos anti-GPL são aceitáveis do ponto de vista empresarial. O problema real é mais direto: permite-se que eu faça algo e dê à comunidade sem a ameaça de alguém tirar proveito disso? É possível uma comunidade ser caridosa sem ter sua caridade desvirtuada? Pode um grupo de pessoas colaborar e criar propriedade intelectual, colocando sob uma licença que garanta sua divisão com qualquer um? Isso é legal? Eu não cito estes pontos sem conhecimento de causa. Meu pai, um homem de quem me orgulho muito, é um pastor. Ele não é nenhum executivo. Ele não tem milhões no banco. Richard Ferris é um homem que dedicou praticamente sua vida inteira servindo à comunidade - sua congregação. Ele, de alguma maneira, economizou o suficiente para pagar minha faculdade (não me pergunte como) - e ele fez isso por mais de um. Eu me orgulho em dizer que sou parente desse homem. Estou aqui para dizer que ele não é como um executivo. Ele fez mais pelas pessoas, e deu mais de si mesmo. Um executivo pode dar tanto dinheiro fruto de monopólio quanto queira, mas como Jesus disse sobre a mulher que deu o que precisava, meu pai deu mais. Sua igreja era bem ativa, ele se aposentou em julho. Mas ele ainda tem planos para serviços comunitários. Meu pai vai fazer algo ininteligível para aqueles que lidam com ações, vai doar seu tempo. Muito antes de existirem essas empresas de tecnologia, meu pai já pregava. Ele não era uma nova aventura ponto-com com promessas de milhões de dólares. Ele estava em um lugar bem respeitado na sociedade, um lugar que existe há centenas de anos. Independentemente da fé de cada um, ninguém pode negar que a sua igreja produziu benefícios válidos e tangíveis para a sociedade, e muito disso deve-se à livre contribuição de voluntários. Naquele momento, o seu "modelo de negócio' não estava em questão. Não é apenas o fato de você poder dividir essas coisas na Internet. Mas sim o fato de que, quando você o faz, a comunidade é potencialmente global. Nunca antes na história da humanidade algo assim acontecera. Um homem poder atingir tantas pessoas de maneira tão positiva. Poucos no atual ambiente empresarial querem tomar conhecimento desse aspecto peculiar do Software Livre.
Tomei a liberdade de citar esse texto porque ele está liberado sob a FDL - Free Documentation License, uma das muitas licenças do Software Livre que permitem o transito da informação. Como você pode ver, até mesmo a informação que chega neste momento para sua análise foi protegida pela comunidade. Se o texto fizesse parte de uma publicação interna de uma empresa, você dificilmente teria acesso a ele.
O movimento pelo software livre não é uma religião e não tem partido, mas há um momento de interseção que o aproxima de certas doutrinas pelo simples fato de focarem no aspecto social. A comunidade simplesmente acha que o bem-estar público deve prevalecer sobre o individual. A quebra da patente dos medicamentos contra a Aids é um exemplo clássico disso, em que se buscou o bem daqueles que não tinham condições para comprar um remédio caro. A ideologia do Software Livre luta contra a exclusão digital, e de certa forma, a exclusão ao acesso à informação e conseqüentemente à educação.
Esse é o motivo principal para explicar por que certos tipos de programas demoram mais para ser feitos no ambiente do Software Livre. Determinado software de CAD ou um software de 3D certamente tem menos importância na lista de tarefas da maioria dos desenvolvedores, comparando-se com o software de um processador de texto genérico que possa ser utilizado por todos. Mas isso não significa que os softwares mais específicos sejam feitos sem atenção, pelo contrário, a qualidade dos softwares no Software Livre é superior porque são feitos com amor.
Você deve estar se perguntando: "mas o amor tem algo a ver com isso?" Muito simples, as pessoas da comunidade têm a liberdade de escolher com que trabalhar, e somente trabalham com aquilo que acreditam. Com o tempo, vão observando o projeto crescer e se tornar algo muito útil e benéfico, e literalmente apaixonam-se pelo seu trabalho. Mais um tabu da sociedade é rompido. Quem disse que 'não há como trabalhar com o que se gosta'?
Como toda comunidade, a do Software Livre possui suas próprias regras, e para se tornar membro basta estar afinado com a ideologia e seguir essas regras. Elas existem para garantir a liberdade, não para restringir. Somente assim a comunidade pode se proteger e continuar em seu caminho. Mesmo a Sociedade, a representação máxima de uma comunidade, possui regras, representadas no "é proibido matar', "é proibido roubar" e tantas outras regras. Elas cerceiam a liberdade, mas pelo bem da coletividade. Pessoas mal intencionadas podem ter acesso ao código e até mesmo ajudar nos projetos, não podemos impedir ninguém de fazer isso. Essas pessoas não encontram dispositivos para tirar proveito do Software Livre, pelo próprio modo como as regras são estruturadas, e isso protege o conhecimento.
A política da boa vizinhança garante que você ganhará ajuda das outras pessoas da comunidade, portanto ser gentil com os outros, ser receptivo e elogiar iniciativas são ações comuns nos projetos de Software Livre. Da mesma maneira como você escolhe seus projetos, escolhe com quem trabalha, e desse modo escolhe quais são as suas amizades. Entrar em contato com pessoas das mais diversas raças e credos e ainda assim conseguir achar um denominador comum é sem dúvida um aspecto muito especial.
Uma das maneiras mais fáceis de observar como a comunidade Software Livre funciona é participar de um Wiki. Os Wikis são estruturas dinâmicas na Internet onde textos colaborativos são formados, ao mesmo tempo em que links (ligações) são gerados entre eles. O conceito é muito simples, é como um grande caderno onde todas as pessoas podem escrever, sem censura. As opiniões mais fortes acabam resistindo e as mais fracas acabam sendo apagadas. No final, o que podemos contemplar é fruto de um pensamento coeso da comunidade que ajudou a formá-lo.
Software Livre diz respeito a decisões que tomamos todos os dias de nossas vidas. Somos responsáveis por essas decisões e padecemos da culpa de nossos erros, por mais resolvidos psicologicamente que possamos ser. Não há nada de utópico no Software Livre, a comunidade existe e está presente em vários lugares, tudo que falta é a sociedade compreender que certos movimentos fazem parte do destino, não podem ser evitados.
Certamente não é a escolha mais fácil,
certamente não é a mais rentável,
certamente não é o que a maioria de seus amigos aconselharia,
certamente não é nenhuma Brastemp.
Certa mente demais.
Use Software Livre porque é correto. Mais qualidade e mais segurança são apenas o brinde.